O legado de papai

Aprendi cedo que, nos percursos da existência, precisamos saber chorar e sorrir; porém, jamais desistir. A primeira lição chegou com a prórpia história de meu papai, Pastor Nirton dos Santos.

Meu avô paterno, Tibúrcio, faleleceu quando papai tinha apenas dois anos. Cinco anos depois, minha avó, Maria, foi encontrada enforcada em cima da pequena cama de papai. Órfão aos oito anos, ele se tornou um menino de rua, lutando incasavelmente para sobreviver nas praças e becos de Joinville.

Entretanto, aos 18 anos ele teve uma experiência com Deus: “Numa noite de Sexta-Feira-Santa fui visitar um pequeno templo da Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Entendi que precisava receber a Cristo como meu Senhor e Salvador. Eu pouco sabia do que significava uma jornada de compromisso com Jesus, mas estava certo de que a vida nunca mais seria a mesma depois daquela noite”, recorda papai.

Após servir ao Exército, ele se casou com uma joinvillense. Mamãe, Isabel Maria, proporcionou a papai a felicidade de desfrutar pela primeira vez do prazer do aconchego de uma família. Mesmo tendo apenas seis meses do ensino fundamental, ele se destacou na construção do porto de São Francisco do Sul; depois, aceitou o convite para trabalhar em um comércio de material de construção em São Bento do Sul; em seguida, atuou na indústria têxtil: “Por muitos anos eu trabalhei a noite na facção São Bento. Saía da fábrica às cinco horas da manhã, dormia duas horas e tomava o caminho da roça, onde plantava milho, feijão e batata. Nos dias de culto eu dormia um pouco mais à tarde para poder participar das reuniões: primeiro como músico e, na sequencia, como um cooperador voluntário da igreja”.

Finalmente, em 1959, papai ingressou em tempo integral no corpo eclesiástico das Assembléias de Deus. Meio século de sacerdócio, dos quais 27 anos como Presidente da Convenção das Assembléias de Deus em Santa Catarina e Sudoeste do Paraná, chegando ao posto de Vice-Presidente das Assembléias de Deus no Brasil. Eu, embora nascido em Blumenau, cresci acompanhando a família em pelo menos seis cidades (Canoinhas, Chapecó, Criciúma, Lages, Itajaí e, novamente, Blumenau), mesclando culturas e sempre conhecendo novas fisionomias.

De papai recebi o legado do temor a Deus, da rigorosa disciplina com a agenda, da paixão pelas Escrituras Sagradas e, parece-me, do jeito de pregar. Sem o seu exemplo de fé e perseverança não chegaria onde cheguei. A ele, meu eterno reconhecimento.