Os caminhos da política

Do envolvimento com as demandas sociais à experiência política, o caminho se revelou extremamente curto.

Porém, aqui, mais do que em qualquer outra área de minha modesta biografia, há uma palavra que precisa ser soletrada com todas as letras:           p – e – r – s – e – v – e – r – a – n – ç – a. Basta lembrar que disputei dez eleições: perdi quatro, ganhei cinco e, costumo dizer, empatei uma.

Tudo começou com as eleições para vereador em 1988. Três meses antes das eleições recebi o convite de um candidato a prefeito. Filiei-me ao seu partido e caí na estrada. Sem experiência, sem estrutura e com menos de 90 dias de campanha o resultado se mostrou pífio: não cheguei a 500 votos.

Eis o desapontamento que me fez deixar o Brasil por quatro meses; mas, como já anotei, o sonho político não me deixou em paz nos Estados Unidos. De volta a Blumenau, mergulhei na leitura de biografias de estadistas vencedores, aprendi estratégias e retornei à estrada. Colhi um excelente resultado: o segundo vereador mais votado nas eleições de 1992, com quase dois mil votos.

O primeiro discurso na tribuna da Câmara de Vereadores de Blumenau, eu nunca esquecerei: breves cinco minutos defendendo um orçamento maior para as políticas públicas de financiamento a programas voltados à criança e ao adolescente.

Dois anos depois, um novo erro de estratégia político eleitoral: a candidatura precoce à Assembléia Legislativa; o resultado, desanimador: pouco mais de dez mil votos; entretanto, no pleito seguinte à Câmara de Vereadores, fiquei novamente entre os três mais votados.

O envolvimento com as demandas sociais do município levou o Prefeito Décio Lima a convidar-me para assumir a Secretaria Municipal da Criança e do Adolescente. Mesmo contrariando a decisão do partido em que estava filiado na época, aceitei o desafio. Como a legislação eleitoral permitia, durante os dois anos que comandei a SECRIAD, fiquei sem vínculos partidários. Valeu a pena apostar no social. Consegui implantar mais de 20 programas, atendendo diretamente cinco mil crianças em Blumenau. Faria tudo de novo. E a população aprovou, reconduzindo-me pela terceira vez ao legislativo municipal, desta vez como o campeão de votos daquela eleição, com 3.324 eleitores.

Em 2002, uma nova aventura eleitoral. Apesar do fracasso na primeira tentativa para uma vaga na Assembléia Legislativa, tomei coragem e encarei uma nova eleição. O resultado saiu até no Jornal Nacional da Rede Globo: tornei-me o candidato mais votado em Santa Catarina, com 59.563 votos, mas não eleito. Faltou legenda. Estava num partido pequeno e, com uma interpretação do Superior Tribunal Eleitoral em meio ao pleito, não poderia estar coligado com outro partido. Ganhei, porém não levei.

Após 12 anos na Câmara de Vereadores, sentia-me cansado; afinal, além de legislar, fiscalizar, discursar e coordenar mutirões de pavimentação de ruas, eu chegava a atender 20 pessoas por dia no Gabinete. Sabia que era hora de um “ano sabático”. Dar oportunidade a uma nova geração de vereadores; entretanto, como não queria abandonar a política, restou-me uma única alternativa: ser candidato a Prefeito, mesmo sabendo da distante possibilidade de vitória. Nesta época, construí uma frase que utilizo para motivar minha equipe: Quem não tem estrela, tem que ter estrada!   

Eu e o Leo Bittencourt, candidato a Vice-Prefeito, visitamos mais de mil residências e percorremos a pé uns 20 corredores de serviço, levando a nossa proposta de governo à cidade. Partido minúsculo, dinheiro zero (não conseguimos recursos sequer para contratar um único cabo eleitoral). Para produzir os cinco minutos de horário eleitoral na televisão, vendi o meu único patrimônio, um automóvel. O gostoso eram os debates; modéstia à parte, eu e o ex-Deputado Federal Wilson Souza (também candidato a Prefeito), nos saímos muito bem. Mas política é muito mais que emoção e discursos. É matemática. Entre os seis prefeituráveis, fiquei em terceiro lugar, com 20 mil eleitores. Cinco minutos após o resultado oficial eu já estava de cabeça erguida, dando uma entrevista na TV Galega, compartilhando os meus próximos projetos políticos.

Porém, 24 horas foram suficientes para fazer a “ficha cair”. Com o fim do mandato de Vereador – em menos de 90 dias –, eu estaria desempregado. Pensei em abandonar a arena política. Poderia optar pelo magistério ou por uma carreira eclesiástica. Mas a voz interior não cessava de sussurrar: a perseverança é a rainha das virtudes.

Recebi um convite do então Senador Raimundo Colombo: coordenar as ações do seu Gabinete no Vale do Itajaí. Topei a idéia e durante dois anos atuei como assessor parlamentar ligado ao Senado Federal.

Na eleição seguinte para Deputado Estadual, lá estava eu. Como havia sido o campeão de votos da eleição anterior, fui vencido facilmente pela estratégia dos adversários que insistiam com os eleitores: “O Ismael já está garantido; foi o mais votado na eleição anterior, não será diferente agora”. A velha história do “já ganhou”, anunciada aos quatro cantos, produziu mais uma vítima: conquistei 25.938 votos, tornando-me o sétimo suplente da Coligação. Desta vez não resisti às lágrimas. Talvez tenha sido a derrota eleitoral que mais doeu; mesmo assim, em dois anos assumiria pela primeira vez o cargo de Deputado Estadual na condição de suplente. Permaneci no Parlamento catarinense por 18 meses. A experiência mostrou-se elementar para mudar positivamente minha concepção de fazer política: passei a adotar ferramentas científicas e estratégias profissionais. Pronto. Era tudo o que eu precisava para as próximas eleições: uma vitrine que me proporcionasse visibilidade e me devolvesse a autoestima.

Quem não tem estrela, tem que ter estrada! Comecei a rodar uma média de dez mil quilômetros todos os meses. Visitei Câmaras de Vereadores, Prefeituras, ONGs, escolas, igrejas, comunidades terapêuticas, associações de moradores. Sempre ouvindo lideranças políticas, entendendo as demandas das diferentes regiões, escrevendo, distribuindo livros e fazendo três, quatro, cinco palestras por semana.

E, então, nas eleições de 2010, o resultado superou qualquer expectativa: 55.644 eleitores que me fizeram o sétimo candidato mais votado para a Assembléia Legislativa, com votos em 286 dos 293 municípios de Santa Catarina. Sim, após quatro tentativas para conquistar uma vaga no Parlamento eu podia olhar para trás e exclamar: valeu a perseverança, porém, valeu muito mais a promessa de Deus.

Na verdade, eu tinha 15 anos quando fui participar de uma palestra para jovens num templo da Assembléia de Deus do bairro Guarujá, em Lages; na ocasião, o convidado era o Pastor João Amaral, de Ponte Serrada. Ao final da sua prédica, ele veio até onde eu estava e sussurrou uma mensagem profética nos meus ouvidos. Entre as muitas coisas que me disse, registro duas frases: “O teu chamado será diferente do chamado dos teus irmãos. Eu te colocarei em lugar de destaque neste Estado, assim diz o Senhor Deus”. Palavra proferida. Palavra guardada a sete chaves. Palavra cumprida 30 anos depois. Deus é fiel!

O Palácio Barriga-Verde, sede do Parlamento catarinense, tornou-se a minha segunda casa. Mergulhei em discursos, projetos de lei, atendimento a prefeitos, vereadores e lideranças vindas de todas as regiões de Santa Catarina. E, como sempre, quatro anos de muita estrada. Então, nas eleições de 2014, seria reconduzido à Assembleia Legislativa com 66.818 votos, o terceiro candidato com o maior número de votos, entre quase 500 candidatos. Conquistei votos em 291 municípios.

Como agradecer faz bem ao coração, anoto aqui que o sucesso nos degraus da política eu devo a Deus, à família, àqueles que fizeram parte das equipes de trabalho – sempre enxutas; porém, eficientes –, e aos amigos eleitores, de todas as idades, crenças, raças, de cada cantinho da minha bela e amada Santa Catarina.