Sonhos de criança

–  O senhor deve estar brincando?! Quer matricular um filho que já morreu?

Papai levou um susto. Olhou para o documento que a diretora de uma escola em Lages lhe devolvia, conferindo o nome: Ismael dos Santos. Ocorre que se tratava da certidão de óbito de meu mano.

Sou de uma família de dez irmãos; porém, fiquei entre dois falecidos. Antes, outro Ismael; depois, a Miriam. De fato, o mano Ismael morreu em Timbó, logo após ao seu nascimento. Um ano depois, eu nasceria numa casa no bairro Vila Nova, em Blumenau. Mamãe gostava tanto da história bíblica de Ismael, filho de Abraão e Hagar, que não titubeou em colocar o mesmo nome: “Deus sempre escuta”, justificava mamãe, referindo-se ao significado hebraico do meu nome.

Não tive as melhores notas no ensino fundamental. O que me ajudou na carreira acadêmica se deve muito mais a organização e a disciplina auto-imposta do que a inteligência.

Aos 12 anos, apaxonei-me pela música. Ganhei um trompete e por mais de uma década toquei em diferentes bandas e orquestras. Mais tarde, sonhei em ser cantor. Lembro do primeiro troféu que conquistei no Festival Interno da Canção (FEINC) e, em seguida, um outro troféu no Festival da Juventude Cristã (FEJUC), ambos em Lages. Contudo, sem uma orientação vocal e por abraçar outros desafios, o sonho atingiu no máximo a gravação de um CD na companhia de alguns amigos. Canções Inesquecíveis se tornou um álbum para ajudar ações sociais em diferentes regiões de Santa Catarina. De qualquer forma, preciso confessar: entrar num estúdio profissional e ouvir a própria voz sendo gravada, foi uma sensação singular, agradabilísima.  

Ainda na adolescência sonhei em ser aviador. Colecionei milhares de fotos e reportagens sobre o mundo da aeronáutica. Arrisquei fazer um teste para a Academia da Força Aérea de Pirassununga. Não fui aprovado; então, decidi voar em outros ceús.

Tornei-me um devorador de livros. A Biblioteca Pública de Lages passou a ser um lugar predileto. Comecei lendo toda a obra de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Tempos depois, senti-me atraído para as ficções e biografias evangélicas. Em paralelo, decidi escrever todos os dias uma página de caderno relatando minhas atividades, aventuras e reflexões. Durante uma década persisti neste hábito. Devo muito da minha vontade de produção textual às centenas de anotações registradas nos diários manuscritos na adolescência.

Aos 14 anos conheci o meu primeiro trabalho fora de casa. Contratado por um escritório de contabilidade, passei a conviver com notas fiscais, carimbos e livros contábeis; a noite, o Colégio Diocesano me equipava com novas ferramentas intelectuais e, é claro, novos sonhos.

Aos 17 ingressei no curso superior de Administração (UNIPLAC); depois, busquei também formação no curso de Letras (FURB); fiz uma pós-graduação em Comunicação (FURB), e Mestrado e Doutorado em Literatura, ambos pela Universidade Federal de Santa Catarina. O dia mais emocionante da minha jornada acadêmica ocorreu após defender a Tese de Doutorado, ouvindo a banca publicar a nota máxima: “A” com louvor. Para o menino que claudicava com notas baixas no ensino fundamental, a conquista traduzia um belo troféu de superação. Devo muito a Doutora Odília Carreirão Ortiga que, por preciosos oito anos, orientou-me pacientemente.